Provavelmente sou
só eu que quando chego a um país estrangeiro a primeira coisa que reparo são as
matriculas dos automóveis, creio que é logo a minha primeira sensação de que não
estou em Lisboa. Isso e os cheiros das ruas a cor da cidade ou a forma como o
sol ilumina os edifícios e as pessoas.
Desta vez, os
chinelos e a mochila ficaram em Lisboa, e não estão guardados nos armários de
casa, ficaram perdidos, arquivados – sim arquivados será a palavra justa para o
que fiz com os meus objetos de vida.
As coisas se
acumulam em nossa casa. Nos fazem lembrar todos os dias que conquistamos algo,
ou que alguém nos ofereceu de presente, e apesar da sua inutilidade técnica, é
útil para a minha autoestima – uma recordação do passado mais feliz, ou algo
que me deixa melancólico quando me recordo porque tenho aquele postal de uma
viagem emoldurado.
Eu tenho talheres
para comer esparguete! Isso só porque achei que tinha espaço suficiente na
gaveta dos talheres para ter. Não que alguma vez as tenha usado de uma forma
regular. Na verdade é mais um elemento exibicionista que uso para impressionar.
Ou o telefone
antigo da minha avó, que ainda guarda o cheiro a cebo das suas orelhas apesar
de ter sido desinfectado ao ponto de ter perdido o brilho!
Aquele boneco de
madeira que guardo como uma promessa!
São como uma
religião, exibidas na estante ou no seu lugar exato como pequenos altares
espalhados pela casa.
Coisas arquivadas,
não esquecidas, as quero muito.
Mas a minha
bagagem teria de ser seletiva e me fez pensar quanto peso esses objetos tem na
minha vida. Arquiva-los significou para mim de que a Viagem a que me tinha
proposto era uma certeza exata, e que já não havia volta a dar – estava
eminente a vinda para Madrid.
Dei-me conta que quando
se escolhe uma “vida nova” precisamos de espaço para novos altares, novas
pessoas, novas memorias.
E isso aprendi à
pouco tempo. Quem me conhece sabe bem o quão sou agarrado ao passado, e o
quanto detestava a incerteza do futuro. A ansiedade que me causou toda esta
viagem.
Mas agora gosto
da incerteza do futuro, porque me surpreende, e me ajuda a lutar contra mim próprio
e contra os desafios que me apresenta.
Gosto deste novo
Pedro, que é mais desafiador/ desinibido, que caminha mais pelas ruas da cidade,
que não se prende a 4 paredes, que aprendeu a estar sozinho e descobriu que é
sozinho que se está mais acompanhado, pela família, amigos. É sozinho que se pode
dar oportunidade ao amor.
Gosto de saber
que a minha ansiedade é por uma causa bem diferente da que tinha antes.
Dois meses intensos, de novas amizades, novos caminhos, um novo amor – quiçá.
Um novo amor completa esta jornada de verão.
Madrid te fez bem, dizem. Madrid me ama e eu, eu sigo amando Madrid!
Desculpa Lisboa, mas te aquivo por agora.

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