Deu-me que pensar #002



Te arquivo Lisboa.

 

Provavelmente sou só eu que quando chego a um país estrangeiro a primeira coisa que reparo são as matriculas dos automóveis, creio que é logo a minha primeira sensação de que não estou em Lisboa. Isso e os cheiros das ruas a cor da cidade ou a forma como o sol ilumina os edifícios e as pessoas.

Desta vez, os chinelos e a mochila ficaram em Lisboa, e não estão guardados nos armários de casa, ficaram perdidos, arquivados – sim arquivados será a palavra justa para o que fiz com os meus objetos de vida.

As coisas se acumulam em nossa casa. Nos fazem lembrar todos os dias que conquistamos algo, ou que alguém nos ofereceu de presente, e apesar da sua inutilidade técnica, é útil para a minha autoestima – uma recordação do passado mais feliz, ou algo que me deixa melancólico quando me recordo porque tenho aquele postal de uma viagem emoldurado.

Eu tenho talheres para comer esparguete! Isso só porque achei que tinha espaço suficiente na gaveta dos talheres para ter. Não que alguma vez as tenha usado de uma forma regular. Na verdade é mais um elemento exibicionista que uso para impressionar.

Ou o telefone antigo da minha avó, que ainda guarda o cheiro a cebo das suas orelhas apesar de ter sido desinfectado ao ponto de ter perdido o brilho!

Aquele boneco de madeira que guardo como uma promessa!

São como uma religião, exibidas na estante ou no seu lugar exato como pequenos altares espalhados pela casa.

Coisas arquivadas, não esquecidas, as quero muito.

Mas a minha bagagem teria de ser seletiva e me fez pensar quanto peso esses objetos tem na minha vida. Arquiva-los significou para mim de que a Viagem a que me tinha proposto era uma certeza exata, e que já não havia volta a dar – estava eminente a vinda para Madrid.

Dei-me conta que quando se escolhe uma “vida nova” precisamos de espaço para novos altares, novas pessoas, novas memorias.

E isso aprendi à pouco tempo. Quem me conhece sabe bem o quão sou agarrado ao passado, e o quanto detestava a incerteza do futuro. A ansiedade que me causou toda esta viagem.

Mas agora gosto da incerteza do futuro, porque me surpreende, e me ajuda a lutar contra mim próprio e contra os desafios que me apresenta.

Gosto deste novo Pedro, que é mais desafiador/ desinibido, que caminha mais pelas ruas da cidade, que não se prende a 4 paredes, que aprendeu a estar sozinho e descobriu que é sozinho que se está mais acompanhado, pela família, amigos. É sozinho que se pode dar oportunidade ao amor.

Gosto de saber que a minha ansiedade é por uma causa bem diferente da que tinha antes.

Dois meses intensos, de novas amizades, novos caminhos, um novo amor – quiçá.                     

Um novo amor completa esta jornada de verão.

Madrid te fez bem, dizem. Madrid me ama e eu, eu sigo amando Madrid!

Desculpa Lisboa, mas te aquivo por agora.

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