Deu-me que pensar #001

Se pensarmos bem não somos todos um bocadinho interesseiros?


Hoje o meu influencer-circle, se é que isso existe (simplificando, o que as pessoas que sigo no instagram me fizeram ver), partilhou um vídeo de uma pessoa que chorava no carro tocada porque alguém em necessidade estava a pedir ajuda para os filhos. O vídeo termina com o moço num ato altruísta a oferecer ajuda. Um gesto que poucos têm a coragem de fazer.


É importante denunciar o maior número de casos de pessoas a passar necessidade, e ajudar quando a responsabilidade dos serviços públicos é descartada.


Mas o que me levou a pensar foi, qual a necessidade da pessoa se expor daquela forma, a chorar no carro e a mostrar aos quase 500 mil que já viram o vídeo que ajudou uma pessoa?


O que mais me incomodou foi assumir-se à partida que as pessoas que passam pela entrada para as compras têm a mesma possibilidade de ajudar. Quantos não entram no supermercado, de carro ou não, sem saber se podem comprar tudo o que levam na lista? Quem nos garante que aquela mulher que esta agora com um cartaz, já não passou por alguém que precisava, mas a carteira dela já era curta antes para ajudar?


Quando digo que somos todos interesseiros de alguma forma, é porque expor a pobreza do outro com a nossa ajuda samaritana que nos dá algumas centenas de likes e protagonismo vale tanto quanto o RSI para um recém-licenciado.


Que fique claro que o ato de ajudar é de louvar. E miserável foram as pessoas que podiam ajudar e passaram para o súper e que não tiveram o mesmo gesto. Mas não gostei de ver a inflamação do protagonismo dando louvor de quem ajudou e não focar o real problema que é a pobreza e a falta clara de apoios ainda mais nesta altura. E falo da nova pobreza, pessoas que devido à pandemia perderam o meio de subsistência, emprego e rendimentos. Tenha sido por acção directa das medidas de confinamento ou por oportunismo das empresas.


Depois há também a indiferença derivada dos esquemas de quem pede sem precisar. Não seria de estranhar a pessoa estar a pedir e na verdade não precisar. Há bons actores-pedintes nas ruas. Quem circula(va) na cidade regularmente bem os conhece. Por isso as pessoas, com alguma razão, não gostam de ajudar em avulso, podendo ajudar as instituições com os donativos. Talvez a nossa ajuda, mesmo sem poder, seja encaminhar essas pessoas a esses centros, porque quem precisa vai ter um acompanhamento mais regular, provavelmente sem precisar de estear um cartaz amanhã em frente a um outro qualquer supermercado.

Enfim, publico isto no blog porque preciso de likes.

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